Por Jorge Soto
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Desativada na década de 70, a E.F. Perus-Pirapora foi o ramal ferroviário criado para transportar o cal produzido de Cajamar até Perus, onde era transformado em cimento na Fábrica Portland. O material produzido ali teve papel importante na construção de São Paulo, abastecendo obras que ajudaram a erguer boa parte metrópole. Não bastasse, a ferrovia era marcada por diversas estações ao longo de seu trajeto, entre elas a Corredor e Santa Fé, as duas primeiras no sentido de saída de Perus. E foi justamente em busca dos vestígios dessas antigas estações que parti para mais uma aventura nos cafundós da Reserva Florestal do Parque Anhanguera, o maior parque protegido do município de São Paulo, refazendo um rolê de anos atrás a muito esquecido. O objetivo era percorrer quase 20kms de ferrotrekking, resgatando um pouco da história esquecida dessa antiga linha férrea, atualmente tombada pelo Condephaat.
Saltei sozinho na estação Perus por volta das 9hrs, após uma tranquila viagem pela Linha Rubi da CPTM. Diferentemente daqueles dias ensolarados e de céu aberto, aquela manhã apresentava um cenário bastante nublado, com o céu completamente tomado por nuvens e uma luminosidade suave, que dava à paisagem um aspecto ainda mais misterioso e convidativo para a caminhada.
Partindo da movimentada estação, bastava seguir para noroeste, acessando uma estreita passagem que levava aos viadutos sobre a ferrovia. Após vencer esse trecho inicial, a recompensa vinha do alto: uma bela vista de Perus, com o recorte da Serra da Cantareira ao fundo e a presença marcante da Pedreira de Taipas no horizonte, em primeiro plano.
Dali em diante, o caminho era bastante intuitivo. Era preciso cruzar a entrada de uma propriedade situada junto ao pé de um pequeno morrote, seguindo por uma rua de pavimentação precária que tangenciava um antigo casarão abandonado, de arquitetura bastante interessante, mas infelizmente entregue ao abandono.
E era justamente ao lado desse casarão que surgiam os primeiros vestígios da histórica ferrovia. Entre a vegetação e o movimentado Córrego Perus, aparecia o início dos trilhos, praticamente escondido atrás da própria Estação Perus.
O antigo casarão também carregava sua parcela de importância histórica. Conhecido como “Casa Azul”, era ali que funcionava um ponto de embarque e venda de bilhetes, além do antigo “Bar do Durval”, onde os passageiros encontravam salgados, refrigerantes e outras guloseimas antes de seguir viagem. Hoje, porém, o cenário é bem diferente. O patrimônio encontra-se em ruínas, tomado pelo mato, com o interior deteriorado e as paredes externas cobertas por pichações. Um triste retrato do abandono de parte importante da memória ferroviária paulista.
Seguindo pelos trilhos, a caminhada avançava em uma curva que conduzia ao antigo pátio da Companhia Nacional de Cimento Portland-Perus. O cenário impressionava: enormes estruturas de ferro e concreto, corroídas pelo tempo, erguiam-se sobre a antiga via em meio à vegetação. O aspecto decadente chegava a lembrar um verdadeiro cenário de filme pós-apocalíptico. So faltava zumbi aparecendo por trás das decrépitas ruínas do entorno.
Era justamente ali que o cal vindo de Cajamar era descarregado nos inúmeros galpões para posteriormente ser transformado em cimento. Inaugurada em 1926, a fábrica, juntamente com a ferrovia, foi responsável durante mais de meio século pela geração de empregos e renda para a região.
Os trilhos ainda apresentavam diversas ramificações que conduziam ao antigo depósito de locomotivas, ao descarregador de pedras e ao escritório de tráfego, revelando a dimensão que aquele complexo industrial um dia alcançou e hoje se encontra definhando ao tempo e ao relento.
Deixando a Portland para trás, os trilhos seguiam para oeste. Logo adiante, uma pequena casa branca, que funcionava como posto de controle de tráfego, permanecia surpreendentemente de pé. Em meio ao mato também era possível identificar as fundações da última versão da plataforma coberta, construída posteriormente, já depois da extinção do serviço de passageiros, em 1972.
Na sequência, a ferrovia passava por uma pequena vila operária abandonada, a Vila Triângulo. Com suas casinhas dispostas de maneira quase cenográfica, o local lembrava um pequeno presépio perdido em meio à vegetação. Ali residiam os funcionários da Portland mas, assim como a própria fábrica, a vila acabou sendo tomada pelo abandono.
A partir dali os trilhos mergulham de vez por um extenso gramado e posteriormente entram num trecho cercado por altas encostas. Em determinados pontos, a própria via desaparecia sob a vegetação ou ficava parcialmente enterrada pelo tempo, exigindo atenção redobrada para manter o rumo.
Os trilhos passam então sob a Rod. dos Bandeirantes, a SP-348. Lembrei que dali nascia uma trilha que leva a margem do Rio Juquery, num belo remanso encachoeirado com lajotas naturais e um verdadeiro piscinão, reduto paradisíaco não fosse por estar atualmente poluído, uma pena. Sim, e depois da rodovia os horizontes descortinam outra paisagem, permitindo avistar ao longe o respeitável cocoruto do Morro da Pedreira, também conhecido como Morro do Tico-Tico.
A caminhada prossegue tranquila ao lado dos trilhos, praticamente sem desnível, passando por algumas pequenas casas de alvenaria e seguindo sempre para oeste. O silencio do lugar imediatamente è quebrado pelos latidos estridentes de cães que anunciam a minha passagem a quem por ventura ali resida.
O aroma intenso e agridoce das ameixas espalhava-se pelo caminho, enquanto algumas voçorocas surgiam junto à vereda, acrescentando novos elementos à paisagem.
Mais adiante, uma estrada de terra cruzava perpendicularmente os trilhos. O caminho, que conduzia à Pedreira Pedrix, foi deixado de lado, pois o objetivo permanecia claro: seguir sempre pela antiga ferrovia rumo a oeste. Não tem segredo algum!
A partir daí os trilhos mergulham novamente floresta adentro. O caminho surge bem definido em vários pontos, ornamentado por pequenas flores e cercado de mata. À direita, o Rio Juquery continuava acompanhando o percurso, ora mais próximo, ora escondido pela vegetação. Mas sempre presente ao nosso lado.

Era uma caminhada extremamente agradável, praticamente plana e envolvida por uma mata espessa que, naquela manhã nublada, filtrava suavemente a pouca luz que conseguia atravessar a copa do arvoredo ao redor. O céu carregado criava uma atmosfera especial, deixando o ambiente mais fresco e silencioso.
Eventualmente, os trilhos se comprimem entre morros formando verdadeiros corredores naturais. Em alguns pontos, encostas rochosas se elevavam de maneira impressionante, fazendo com que a ferrovia parecesse espremida entre enormes paredes naturais.
E assim a chinelada avança por longos trechos, alternando segmentos retilíneos e pequenas curvas que contornavam as encostas. Em determinado momento, a mata fechada dava lugar a campos abertos, áreas alagadiças, brejos, banhados e pequenos afluentes do Rio Juquery.
Depois de coisa de 8kms percorridos desde a Portland, por volta das 11hrs, eis que surge diante de mim aquilo que parecia um pequeno vilarejo abandonado que mais se assemelhava a uma antiga cidade de filme de faroeste. Na realidade, tratava-se do que restava da antiga Estação Corredor da E.F.P.P. Localizada no setor norte da Reserva Florestal do Parque Anhanguera, Corredor não era propriamente uma estação oficial, mas funcionava como ponto de parada dos trens, pátio de locomotivas, posto telefônico e local de abastecimento de água.
Espalhadas pelo antigo complexo, várias charmosas locomotivas permaneciam enfileiradas sobre os trilhos, algumas em melhor estado de conservação do que outras. Boa parte delas era proveniente da antiga Estação Gato Preto, em Cajamar, já demolida. Ali encontrei a única pessoa de todo aquela aventura no mato, um tiozinho que provavelmente tomava conta de tudo aquilo ai. Acenei pra ele, que acenou de volta pra mim. Enfim, política de boa vizinhança em terreno que mal sabia ser propriedade particular e, provavelmente, proibido de estar pisando ali.
Após uma breve pausa para recuperar as energias beliscando um chocolate e bebericando meu cantil, retomei a caminhada pelos trilhos. No entanto, a condição dos mesmos agora era incerta e nada convidativa. Parte do trecho encontrava-se roçada, enquanto outra estava tomada por afiado capim-navalha, taquarinhas espinhentas e toda sorte de mato agreste. Diante disso, optei por cortar o Parque Anhanguera na diagonal por estradas internas, reduzindo consideravelmente a distância que seria necessária para contornar toda a reserva. E sem me afastar demasiado dos trilhos, por precaução.
Meu caminho seguiu então por uma precária estrada de terra, inicialmente ganhando altitude de forma suave em direção ao norte, passando pelo alto de um pequeno morrote e posteriormente desviando para oeste.
Assim, em meio à um vasto reflorestamento não tardaram a surgir vários cruzamentos pelo caminho. Mantendo a orientação por meio de mapa, bússola e bom senso, fui escolhendo os caminhos mais evidentes que seguiam na direção desejada.
Ao atingir o limite oeste do parque, próximo a uma baixada de vale, a rota mudou novamente para o norte. A caminhada permanecia praticamente em nível, sinuosa e agradável, cercada pela exuberante Mata Atlântica.
Aos poucos, o som de água corrente começou a ganhar força. Era o Córrego Santa Fé, afluente do Juquery que seguia escondido no fundo de um estreito desfiladeiro. Bem que tentei me enfiar na mata pra clicar as quedas do mesmo, sem sucesso algum!
Prosseguindo sempre para o norte, finalmente alcancei o extremo noroeste do parque. Agora era necessário reencontrar a linha férrea e localizar a tão aguardada Estação Santa Fé, já praticamente nos limites entre São Paulo e Cajamar. Após procurar cuidadosamente pela margem da estrada, encontrei uma pequena trilha bastante marcada que desaparecia mata adentro na direção desejada. Em poucos minutos, ela me levou novamente até a linha férrea. Ufa!
Segui novamente pelos trilhos, alternando entre os dois lados da via conforme a vegetação espessa e as árvores tombadas permitiam passagem. Em determinado ponto surgiu um antigo pontilhão sobre o Córrego Santa Fé, que precisei atravessar com bastante cautela, utilizando os próprios dormentes e trilhos como apoio.
Do outro lado, continuei acompanhando a linha por alguns minutos, desviando do arvoredo tombado e da mata que ameaçava engolir a via férrea. Logo percebi, porém, que estava me afastando demais da localização indicada para a estação. Sem perceber, cometi o mesmo erro da vez anterior, avançando demais na direção errada. Meia volta, volver!
Diante disso, foi necessário retornar pelo caminho percorrido, atravessar novamente o pontilhão e seguir no sentido contrário. Depois de mais alguns minutos de procura, agora tocando no sentido leste pelos trilhos, finalmente surgiu a recompensa na forma de um vulto elevado em meio a vegetação: escondida em meio ao espesso matagal, estava a Estação Santa Fé, tal qual a havia encontrado meia década atrás!

Naquele momento, pouco antes das 13hrs, o pequeno ponto ferroviário revelava-se praticamente apenas como uma estrutura de concreto semelhante a um ponto coberto de ônibus, com sobreteto forrado pela folhagem caída do arvoredo ao redor. Assim como a estação Corredor, Santa Fé também tinha funções específicas dentro da operação ferroviária. Era utilizada como posto telefônico para autorização de circulação, ponto de parada e local de cruzamento de trens.
Depois de alcançar finalmente o objetivo, fiz uma nova pausa para alimentação e hidratação. Era hora de recuperar as energias antes de iniciar o longo caminho de volta. A ideia de permanecer mais um tempo ali logo se diluiu quando pequenos sanguessugas alados perceberam a presença deste que vos agora escreve, e viram nele opção de tira gosto fácil praquele inicio de tarde.
Assim, cerca de 20min depois retomei minha chinelada no sentido contrario. Refiz parte do caminho até alcançar novamente o emaranhado de estradas internas do parque. A partir dali, segui pelo vale do Córrego Santa Fé, abandonando posteriormente a região mais baixa e ganhando novamente a área de reflorestamento em direção ao leste.
Numa importante bifurcação deixei de lado o caminho que conduzia novamente à Estação Corredor e mantive a direção sudeste. Esta foi a única diferença do meu trajeto de ida. Andei, andei e andei, e acredite se quiser, que durante todo esse tempo não cruzei com qualquer vivalma! Caminhos se cruzavam com outros em meio ao vasto eucaliptal, mas eu sempre tomava o caminho que fosse na direção desejada, ou seja, pro sul, pois sabia que uma hora encontraria a Rod. Anhanguera e, consequentemente, civilização. O mapa e a bússola foram companheiros indispensáveis durante todo o percurso, garantindo que a direção permanecesse correta mesmo diante das inúmeras bifurcações e trechos onde a duvida permeou a cabeça mais de uma vez.
Finalmente tropecei com as instalações do CEMACA, o Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres. O local abriga um dos maiores hospitais veterinários destinados a animais silvestres da América Latina. Mas ate ali não havia sinal algum de vida pelo fato de ser dia domingo! No entanto, o difuso som de veículos vindo de longe indicava que a saída do parque estava cada vez mais próxima. A euforia de estar chegando ao final, entretanto, acabou provocando um pequeno erro de navegação.
Uma via equivocada levou-me na direção sudoeste. Ao alcançar o limite do parque, já era possível enxergar claramente a Rod. Anhanguera, a SP-330, do outro lado de um trecho de vegetação fechada. Como retornar significaria refazer uma boa distância, a alternativa escolhida foi atravessar diretamente o matagal. Dane-se!
E depois de rasgar mais um trecho de mato – repleto de sujeirinha de capivara! - sem muita dificuldade pisei no asfalto da rodovia por volta das 15hr, respirando aliviado por sair daquele emaranhado labiríntico de estradas do Parque!
Se atè ali havia chegado pela via férrea, agora retornava pelo entediante asfalto. Paciencia. A Anhanguera logo deu lugar a Estrada de Perus, e depois de um trecho que parecia não ter fim cheguei em Perus pouco depois das 16hrs. Depois de praticamente um dia inteiro de caminhada, ainda havia tempo para passar em um mercado, garantir uma merecida cerveja e alguns salgados e, só então, iniciar o retorno definitivo para São Paulo.
Cansado? Claro. Mas também extremamente satisfeito por concluir o objetivo proposto.
Foram quase 20kms de caminhada por trilhos abandonados, matas, vales, rios, áreas alagadiças e antigas estruturas ferroviárias esquecidas pelo tempo. Uma jornada que, além do esforço físico, proporcionou uma verdadeira viagem pela história esquecida deste pitoresco ramal ferroviário pouco conhecido.
Vale mencionar que a chinelada acima descrita não è nada do outro mundo em termos de orientação. Sim, è verdade também que o parque è um emaranhado sem fim de trilhas e caminhos que se entrelaçam a todo momento, mas sabendo o mínimo de navegação artesanal e tendo um pingo de bom senso ou intuição afiada è possível resgatar por conta própria a historia esquecida da E.F. Perus-Pirapora.
E diante de tantos desafios encontrados pelo caminho uma coisa fica clara: preservar essa história não significa apenas olhar para o passado. Significa também abrir uma nova possibilidade para o futuro.
Porque toda ferrovia carrega histórias. E algumas delas simplesmente merecem voltar a circular. Nem que seja por meio da minha.
Fotos: acervo de Jorge Soto

